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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Desastre, Cesário Verde

Uma homenagem a um poeta português, cujas preocupações sociais se refletem na obra ...


Desastre

Cesário Verde, 1875
A brisa que balouça as árvores das praças, Como uma mãe erguia ao leito os cortinados, E dentro eu divisei o ungido das desgraças, Trazendo em sangue negro os membros ensopados.
Um preto, que sustinha o peso dum varal, Chorava ao murmurar-lhe: «Homem não desfaleça!» E um lenço esfarrapado em volta da cabeça Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.
Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes, Corriam char-à-bancs cheios de passageiros E ouviam-se canções e estalos de chicotes, Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.
Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta, A rir e a conversar numa cervejaria, Gritava para alguns: «Que cena tão faceta! Reparem! Que episódio!» Ele já não gemia.
Findara honradamente. As lutas, afinal, Deixavam repousar essa criança escrava, E a gente da província, atónita, exclamava: «Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!»
Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos; Mornas essências vêm duma perfumaria, E cheira a peixe frito um armazém de vinhos, Numa travessa escura em que não entra o dia!
Um fidalgote brada a duas prostitutas: «Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!» Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.
Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer, De bagas de suor tinha uma vida cheia; Levava a um quarto andar cochos de cal e areia, Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.
Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco, Sentira a exalação da tarde abafadiça; Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco E o fato remendado e sujo da caliça.
Gastara o seu salário — oito vinténs ou menos —, Ao longe o mar, que abismo! e o sol, que labareda! «Os vultos, lá em baixo, oh! como são pequenos!» E estremeceu, rolou nas atracções da queda.
O mísero a doença, as privações cruéis Soubera repelir — ataques desumanos! Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos Andara a apregoar diários de dez réis.
Anoitecia então. O féretro sinistro Cruzou com um coupé seguido dum correio, E um democrata disse: «Aonde irás, ministro! Comprar um eleitor? Adormecer num seio?»
E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro, — Conservador, que esmaga o povo com impostos —, Mandava arremessar — que gozo! estar solteiro! — Os filhos naturais à roda dos expostos...
Mas não, não pode ser... Deite-se um grande véu... De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos! Todos os figurões cortejam-no risonhos E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.
E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa, Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas: Isto porque o patrão negou-lhes a licença, O Inverno estava à porta e as obras atrasadas.
E antes, ao soletrar a narração do facto, Vinda numa local hipócrita e ligeira, Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto: «Morreu! Pois não caísse! Alguma bebedeira!»
30 de Outubro de 1875

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